Um atleta, amigo meu, ouviu de seu técnico, um dos melhores e mais respeitados do país. Confirmei com o técnico, também amigo antigo.
E juro que é verdade. Não vou dizer os nomes porque, como sabemos, o esporte favorito do personagem em questão é perseguir desafetos. O segundo é futebol.
Handebol não aparece na lista.
Após algum tempo sem ir à Federação o técnico apareceu para resolver algumas questões burocráticas. O presidente, notificado de sua presença, desceu à secretaria para conversar. Durante esta conversa perguntou qual era a opinião do técnico a respeito do que ele gosta de chamar de "A conjuntura do Handebol"
"- O senhor quer uma resposta politica ou a verdade?"
" A verdade, claro!" - respondeu o senhor Lazari
A partir daí ouviu uma detalhada análise, repleta de tópicos negativos. Terminada a exposição ouviu do presidente:
"- Você tem razão, mas isso é culpa do continuismo" - disse o senhor Lazari.
Juro que disse. Pode rir, mas ele disse isso!
Ante a cara de perplexidade do técnico, emendou "- Eu mesmo só fico porque todo mundo me pede..."
Todo mundo pede. E pede mais. E pede bis. Pois quando eu quero todos querem, quando eu quero todo mundo pede mais.
Olha o meu charme, minha túnica, meu terno, sou o anjo do inferno que pintou pra lhe abusar, como diz o Raul
O técnico conseguiu conter o riso antes de dizer boa tarde e sair.
DIADEMA NÃO USA REXONA
A cena mostrava uma pessoa à espera do elevador. Quando a porta se abre, ele aparece lotado. A pessoa entra mesmo assim, enquanto, em off, o locutor diz: "- Sempre cabe mais um, quando se usa Rexona."
É um comercial muito antigo. A expressão pegou.
"- Cabe aí? "
"- Depende . Usa Rexona?"
Parece que Diadema não usa. No início do ano, São Caetano se viu, por motivos que desconheço, forçado a abrir mão da disputa da categoria Junior Masculino, do Campeonato Paulista 2009.
Como a tabela já estava pronta, São Caetano achou interessante propor à Federação sua substituição pela equipe de Diadema, assim a programção das equipes não sofreria alterações. A princípio, a idéia foi aceita.
A Secretaria de Esportes de Diadema fez um trabalho em tempo recorde para viabilizar finaceiramente aquela que seria sua primeira participação em campeonatos oficiais. A dois dias de seu primeiro compromisso, o Secretario de Esportes do Município recebeu um telefonema da FPH dizendo que sua inscrição fora indeferida, por "pressões dos clubes".
Imagino que os clubes não quiseram ter um cameponato inchado. Para os padrões da Federação Paulista de Handebol sete clubes num único torneio é um exagero. Optaram por deixar seis.
Seis.
Vamos assumir que este absurdo seja verdade. Os clubes não quiseram. Não deveria ser papel do presidente trazer cada vez mais equipes para a federação e fazer com que os clubes entendam que este é um benefício para o handebol? Concordamos todos com isso, nós que queremos este crescimento.
Acontece porém que aumentar o número entidades aumenta a dificuldade na manipulação de eleições. Não posso ter certeza, naturalmente, que este seja o motivo. Mas qual outro é possível ? Talvez o alto custo de trocar o nome no site. O de São Caetano continua lá. Considerando a verba destinada ao pagamento de site, acho que, após 8 meses, deveria ter sido retirado.
Não é a primeira vez que nosso presidente dificulta o ingresso de agremiações. Araçatuba, há coisa de sete ou anos atrás, pediu um desconto e parcelamento de uma dívida, para retornar à Federação.
A resposta foi "ou tudo ou nada". Poderia ter sido : "-Não precisamos de mais equipes jogando nossos campeonatos. O handebol paulista precisa conter este seu crescimento desenfreado."
Curiosamente este "tudo ou nada" não vale para o Centro Olimpico, que nunca pagou taxa alguma na federação, salvo arbitragem. " - Disso eu não abro mão" - disse a mim o próprio senhor Lazari, insinuando que valoriza o papel do árbitro. Ouvi isso também da boca de Magic Paula, diretora do Centro Olimpico. Mesmo nãpo pagando e, por motivos estatutários, impedido de votar em eleições o Centro Olimpico, assim como o inadimplente Guarulhos, deram os votos que o reelegeram.
Araçatuba? Parece que não faz falta para o presidente.
Diadema? Desculpe, desodorante errado...
PENSANDO BEM...
Falei uma bobagem no post abaixo.
O numero de participantes destas olimpíadas escolares é astronômico. É muito provável que vários tenham chegado às Olimpíadas.
Mas os que chegaram - eu mesmo participei e não fui para as Olimpíadas "apenas" porque o Brasil não se classificou - não o fizeram porque esta competição existe.
Não muda, portanto, o teor da carta. A porcentagem é irrisória e a competição não foi determinante. Teriam ido para as seleções disputando outras competições. Fazer mais uma seria um gasto inútil.
SE FOSSE ASSIM SIMPLES...
Lars Grael ficou comovido com a vitória do Rio de Janeiro em Copenhagen.
Lars, além de fantástico iatista, campeão olímpico, foi o dirigente maior do esporte amador do Estado de São Paulo durante alguns anos.
Lars nos lembrou que, a despeito de toda a felicidade que dirigentes brasileiros pudessem estar sentindo, é preciso investir na base, que está fraca.
Lars, do alto de sua experiência, nos explicou que a base está fraca porque, de há muito, a escola está dissociada da atividade física.
Lars, perguntado sobre qual seria a solução, nos indicou o caminho: a realização de uma grande olimpíada estudantil.
Lars, Lars, tanto currículo, tanta experiência, para falar uma bobagem deste tamanho...
Lars, permita que lhe refresque a memória: a Secretaria de Estado que você dirigiu realiza uma destas olimpíadas a um custo que sequer consigo imaginar – 2 milhões, 3 milhões? Mais, talvez?- mas que você conhece com precisão. Uma olimpíada
envolvendo toda a rede estadual de São Paulo, com treinamento pago aos professores pela Secretaria da Educação. Estimo que participem pelo menos 15.000 estudantes. Duvido que qualquer uma destas crianças chegue às olimpíadas. Do Rio ou qualquer
outra.
Lars, permita que eu lhe diga – estou brincando, sei que você não vai ler – que a Federação do Desporto Escolar do Estado de São Paulo organiza outradestas grandes olimpíadas, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.
São cinco mil crianças competindo - APENAS NA CIDADE DE SÃO PAULO - de maio a novembro, em handebol, voleibol, basquete, futsal, natação, ginástica, judô, xadrez e tênis. Uma só categoria de atletismo reuniu 1200 crianças num
único dia de competição. As quadras da cidade receberam quase 4000 jogos. Parece fantástico e, de um certo ponto de vista, é mesmo. Infelizmente, menos fantástico do que poderia ser.
Lars, sabe o que mais me marcou durante nestes dois anos trabalhando na organização destes jogos? Foi um varredor do SESC, que eventualmente os sedia, me perguntando:“- De quem é a culpa destas crianças jogarem tão mal?” Duvido
que ele tenha visto um jogo de handebol antes daquele. Mesmo assim, sabia que estavam jogando mal.
Não respondi para ele, mas eu sei. Eu sei.
A culpa é de pessoas como você, que tem ou teve o poder de mudar alguma coisa e, acredita que a solução está em Eventos e não em Programas. Gente que ignora não apenas a opinião, mas a própria existência dos que trabalham sem recursos para melhorar
esta situação.
Lars, a solução passa longe de uma grande Olimpíada Escolar. Já existe. No plural.
A solução é fazer com que , sem desconsiderar seus enormes méritos, Jardim Irene, Gol de Letra e outros parem de falar em número de crianças atendidas e passem a falar em Inclusão Qualitativa.
Incluir, sem a perspectiva de continuidade, é fazer pela metade. Tem que incluir, motivar, descobrir o talentoe encaminhá-lo. É preciso que o Clube Escola seja o que Prof. Francisco Dada gostaria que fosse, e não este um sete um eleitoreiro
que na prática é, por conta do dublé de médico e politico que está na secretaria de esportes. A criançada joga tão mal, tiozinho que varre o SESC,por culpa dele também.
Todos sabemos que o problema está na base, Lars. Quem não sabe nada de esporte, quem não sabe nada de educação física escolar, jornalista que só se interessa por futebol, todo mundo sabe. Isto é lugar comum. O problema é que poucos
sabem o que fazer a partir de constatado o óbvio.
O legado destas olimpíadas cariocas, não vai ser diminuição de violência, melhoria no transporte, na saúde ou no mercado de trabalho. Se os empresários forem espertos o suficiente, o grande legado será a criação e manutenção de PROGRAMAS
de iniciação esportiva de qualidade, como ponto de partida para uma política desportiva nacional.
A aceitação definitiva do esporte como instrumento de educação será, se tudo der certo, o legado das olimpíadas. Um instrumento que revele muitos campeões e, no processo, forme milhares de não campeões com mente e corpo mais saudáveis.
Um povo melhor.
É este o argumento que pode calar aqueles que acham que esta montanha de dinheiro deveria ser investida na saúde e educação.
Senhores do contra, este só não será um investimento em saúde e educação se formos burros o bastante para deixar a oportunidade passar.
Se nós soubermos aproveitá-la será,então, possível que o destino do esporte brasileiro seja entregue em mãos mais qualificadas do que as de um médico cuja afinidade com a área se resumea saber o resultado do jogo do Palmeiras, a dirigentes estudantis que
se reuniam em DAs e congressos do PC do B chamando os atletas da universidade de burros e alienados ou até a maravilhosos esportistas, como você, Lars.
Gente cuja preocupação é fazer grandes olimpíadas para quem não sabe jogar.
Sugiro que a abertura destas olimpíadas seja feita por um grande Corpo de Baile, composto por bailarinos que não sabem dançar, acompanhados por uma orquestra de gente que não sabe tocar.
APONTAR O ALVO TEM SEUS RISCOS
Quem aponta fica exposto. É natural que se torne, ele próprio, um alvo para atiradores que não gostem ou não concordem com suas opiniões.
Eu sempre soube disso e sempre aceitei estes riscos como sendo parte do processo da mudança, que para mim é mais do que uma questão de evolução do handebol: é questão de sobrevivência da modalidade, no que se refere a competição em alto nível.
Um destes tiros foi apublicação de uma nota, entre mentirosa e arrogante, no site da FPH dando conta de que a chapa fraudada nas eleições passadas – fraude que permitiu a continuidade desta gestão – havia perdido o processo que moveu contra a FPH, uma inverdade que pretendia legitimar esta eleição, comprovadamente manipulada. Tenho as provas aqui comigo, caso alguém se interesse. Gravações, testemunhos em cartório e extratos bancários.
Como, então, a atual diretoria cantou vitória em seu site?
Fez isso porque, mesmo não tendo ganho processo nenhum, impediu que este fosse julgado. Entrou com um recurso alegando falta de mérito: que a chapa que perdeu não tinha legitimidade, já que não era composta por filiados. Em outras palavras, alegou que a chapa que concorreu referendada pelo departamento jurídico da FPH, não podia sequer entrar com recurso, tinha mais é que aceitar a fraude e ficar quietinha.
A juíza que acatou este absurdo, posteriormente, admitiu ao advogado que nos representa que podia estar errada, que se entrássemos com recurso ela o avaliaria.
Não entramos com este recurso.
Por que não?
Porque o prazo provável para seu julgamento seria de dois a três anos, posterior, portanto, às próximas eleições. Quer dizer, a atual diretoria fez um gol com o pé que o juiz não viu, ganhou o jogo e saiu comemorando como legítimo campeão. Não adianta entrar com recurso, o campeonato já acabou
Não é exatamente ético, mas é bem a cara daquele que, no dia da eleição, disse ao Alberto Rigolo: -“ Em política vale tudo, menos perder”.
Imagino que José Sarney deva pensar assim.
De qualquer forma, teremos outra eleição logo. Sou e não sou candidato.
Exatamente como na eleição anterior. O nome à frente da chapa era o meu, mas poderia qualquer um entre outros seis, sete. Somos um grupo que pretende trabalhar longe de personalismos, aglutinando idéias. Por isso, tanto faz quem venha a ser presidente, desde que faça parte deste grupo de pessoas que, tendo hoje entre 40 e 50 anos, cresceram dentro do handebol, a ele devem muitos dos melhores momentos de suas vidas e pretendem colocá-lo no lugar que acreditamos lhe seja devido. Se você acha que é uma destas pessoas, basta nos procurar. Tá dentro.
Gente que, caso perca ou seja vítima de nova fraude, continuará trabalhando pelo handebol, fazendo mais pelo esporte fora da federação do que a atual gestão faz lá dentro.
Gente que acredita mesmo no verdadeiro papel do esporte. Gente que acha que deve ser instrumento nas mãos de Mandela – que é único - e não dos Emilio Médici – estes sim, incontáveis. Quem conhece a história da Copa de 70 e a do Mundial de Rugby vencido pela África do Sul sabe do que estou falando. Pra quem não sabe, conto uma outra hora.
O mundial da África é, provávelmente,a história mais dignificante do esporte em todos os tempos.
SOMOS MAIS BONITOS QUE OS OUTROS...
Claro que não dou mais este IBOPE todo, mas em todas as delegações poli esportivas das quais fiz parte - JUbs e JEBs por exemplo - ouvíamos isto.
Quando, na Olimpíada de Sidney, André Plihal, entrevistando as meninas do basquete, perguntou qual era o atleta mais legal da delegação, ouviu como resposta “ - O Guga!” “ - E os mais bonitos?” perguntou. “ - Os meninos do handebol!”
Pois, então. Nossos herdeiros estão mantendo a tradição.
Não sei se na minha época era verdade, mas, hoje certamente é e não digo isso por modéstia.
Estou tentando dizer que isso não é um acaso. É uma espécie de “prova empírica” de que o handebol é um esporte mais completo do que os outros, no que se refere ao desenvolvimento harmônico do corpo. A natação era um adversário de respeito, até quea altura dos caras passou a ser ítem fundamental. Essa procura pelo biótipo ideal para cada esporte - coletivos mais que os outros - privilegiam formas anormais, incomuns. O atleta de alto nível é, hoje, quase uma caricatura. Um cara alto e forte é bonito, mas um pirulão de dois e dez é estranho. Se tiver uma carinha de bebê, mais ainda. Os atletas do handebol são mais bonitos porque o biótipo ideal para prática da modalidade é o biotipo ideal para qualquer homem. Todo trabalho, portanto, é desenvolvido no sentido de tornar melhor uma pessoa normal.
Esta conversa - completamente inútil, é verdade - vem a propósito do esporte escolar.
Hoje em dia quase só se joga futsal nas escolas. Nas Olimpíadas da Prefeitura de São Paulo, a soma dos jogos de Handebol,Basquete e Vôlei mal dá para empatar. Somando os dois naipes, de qualquer uma destas modalidades, não chegamos ao número do Futsal Feminino. Imagino que na Olimpíada Escolar da Secretaria da Juventude do Estado o fenômeno se repita. Isso me parece preocupante porque, deixando de lado o fato de não ser olímpico,do ponto de vista da formação do aluno, Futsal é jogo, não esporte. As possibilidades demovimentação em quadra e movimento do corpo são restritas.Apenas a parte do corpo abaixo da cintura- nem toda ela, nem toda – é trabalhada. Os trabalhos anaeróbico e de braços apenas acontecem em caso de briga.
Houve um tempo - mil novecentos e guaraná com rolha, quando eu era colegial - em que a Secretaria da Juventude retirou o Futsal do calendário de suas competições, para não prejudicar o desenvolvimento dos outros esportes. A partir daí, o handebol iniciou uma trajetória que o tornou o esporte mais popular na rede escolar. A tal ponto, que a prefeitura de São Paulo obriga uma escola que, nas suas competições, inscreva equipe em Futsal ou Handebol, inscreva uma outra em Basquete ou Vôlei. Parece uma boa idéia. Parece. Na prática só faz aumentar o número WOs nas outras modalidades e diminuir o número das equipes de Handebol, embora ela seja, diferentemente do que se convencionou dizer, a segunda mais praticada. Segunda. O futsal é, disparado, a primeira.
Talvez seja a hora de uma reavaliação do papel do Futsal como instrumento da Educação Fisica Escolar. E lhe destinar um papel proporcional à sua utilidade. Banimento talvez seja um exagero, mas aumentar a faixa etária para pratica me parece indispensável. Seria menos nociva.
A massa praticante de esportes escolares é muito menor hoje. As modalidades mais praticadas são Wii, Play Station, www e, quem sabe, sexo. Trazer a criança para o esporte é muito mais difícil hoje do que foi na minha geração: a oferta de lazer - principalmente lazer do menor esforço - é muito grande. E trazer a criança para o Futsal, não é trazê-la para o esporte. Colocar o handebol no mesmo patamar é absurdo. A diferença entre os benefícios da prática de um e de outro é imensurável porque, como se sabe, os meninos do handebol são mais bonitos.
Já ouvi muita grita, ao expor esta opinião. Muitos professores foram boleiros e futebol de verdade não é uma opção nas escolas. Quanto às deficiências da modalidade como instrumento de formação, nenhum argumento contrário. Fala-se apenas que não se pode lutar contra a cultura do povo.
Mesmo não sendo este sequer um argumento, pode-se contrapor que a cultura é a do Futebol. Não do Futsal, do Pebolim ou Botão.
Se é pra movimentar apenas dois membros, qualquer um destes nobres esportes serve.
De qualquer forma, não apenas se pode, como se deve lutar contra o estabelecido. É exatamente isso que move o mundo. Temos pequenos exemplos, como a queda do Muro de Berlim, da Bastilha, a Revolução Russa, a Industrial, a Independência do Brasil, a Inconfidência Mineira... pois é, nem sempre termina bem.
Mas sempre termina com Bernard Shaw, aquele teatrólogo inglês a quem a mais bela atriz do seu tempo propôs a concepção de um filho:
“ - Já imaginou Bernard, uma criança com minha beleza e sua inteligência?”
“ - Lamento, minha cara! Não posso correr o risco de que aconteça o inverso!”
Ele, que era ainda mais inteligente do que a tal atriz supunha, disse também o seguinte:
“O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem insensato.”
Sou insensato, graças a Deus.
E bonito, também.
Sou um menino do handebol
VIVA O POVO BRASILEIRO!
Verdade seja dita, fez do lado reservado aos homens...
ESSE AÍ EU CONHEÇO...
Conheço o Vitão.
É um cara enorme, inteligente e de altíssimo astral. O maior outsider. Gosta mais do Bill Laimbeer do que do Michael Jordan. É fã do Chabal e do Eli Manning. É o único paulista que torce de verdade para o Grêmio. Gosta de Queensryche, Pink Floyd e Dream Theatre. E, claro, Handebol.
Há mais de dez anos vem mantendo um clube que só existe na sua cabeça, nas gavetas de sua casa onde guarda uniformes e no coração das pessoas que se encantam com seu trato e com ele se cotizam para pagar taxas de arbitragem . Trabalha de graça.. Tá legal, tá legal, vamos ser piegas: por amor ao Handebol.
Handebol assim, com maiúscula.
Conheço o Alemão e o Chiquinho desde que eram moleques fascinados por aquela máquina difícil de entender e dominar a ponto de ser útil. Sabiam tudo de DOS e eram dos poucos que tinham um PC 386.Eram malucos peloIron , Sabbath , Sisters of Mercy e... Handebol. Hoje, quandoo Windows já foi inventado e diversas vezes reinventado,são doutores e empresários que usam laptops com Intel QuadriCore e não tão malucos assim por metal – o Chiquinho, Deus o perdoe, até gosta de axé. Continuam, no entanto malucos por Handebol. Fazem o que podem e o que não devem para jogar e manter sua equipe ativa.
Conheço o Zé Roberto, de Diadema. Um cara articulado, serio e culto que há anos vem tendo progressos notáveis com suas equipes, driblando as dificuldades estruturais inevitáveis numa Prefeitura com carências tão grandes. Mesmo sendo tão diferente do Marcão, de Franco da Rocha – um cara mais informal - tem em comum com ele a seriedade e uma garra que só é rara fora do Handebol. Num município com os mesmos problemas e ainda menos recursos, o Marcão consegue cavar um apoio da Secretaria para inscrever uma equipe na Liga Metropolitana. Aí, inscreve duas, e monta um barzinhocom seus atletas em dias de jogos no seu ginásio para custear a segunda. Não muito diferente do Délcio, em Itaquá e parecido, também, com o que faz o Alexandre , de Ferraz de Vasconcelos, o Enrico do CPH, o Big do Hand Ibira e a Renata, junto às meninas do Hand +.
Eu os conheço, também. São aqueles que treinam das 23:00 às 24:00hs das quartas –feiras- sempre véspera de trabalho pesado (THIS is A Hard Day´s Night, John) oupedem para marcar os jogos após o horário comercial de sábado, para que todos possam vir jogar. Se alguns faltarem, não terão gente suficiente para arrecadar o dinheiro das taxas. Fazem isso há anos.
Como quase todo mundo que vive no meio, conheço o Martins, de Ribeirão Pires, que demora anos para montar uma equipe campeã dos Abertos e como reconhecimento a vê ser desmontada e é forçado a começar do zero, com iniciantes, apósdécadas de trabalho.
E começa.
E se entusiasma, mesmo com o histórico de três divórcios por causa dessa dedicação.
Um entusiasmo como o do Leandro Magoo, que há anos trabalha dentro de escola da USP , conseguindo motivar calourosde Biologia, formando equipes que jogam sério e bonito até que a formatura as dissolva e seja obrigado a começar de novo. Gonzaguinha vem imediatamente à cabeça. Livre associação. “Começaria tudo outra vez., se preciso fosse...” Cara, se não é amor, é muito parecido.
Conheço o Reinaldo e o Cesinha ,de Mogi das Cruzes, que há anos trabalham junto ao município para manter a equipe tricampeã dos Regionais, Abertos e da Liga Metropolitana, batalhando ano após ano para estendero foco deste trabalho para a iniciação e inclusão social.
Conheço o Cássio, o Shiota e o Emilio, que depois de anos trabalhando como engenheiros e empresários sentem a necessidade de continuar com o esporte. Quer dizer, não exatamente com o esporte. Com o Handebol. Da mesma forma que o Mandetta, Pereira , Vinicius. Atletas de nível internacional que fazem questão de continuar jogando e, por isso, inventaram o Pinheiros Masters..
Poderia continuar citando. A Sonia do Guarujá, a Denise e Thiago, de Mauá.A Tuca de São Sebastião e o Evandro da Praia Grande. Marisa e Rodrigo de Jacareí. O Zé Luis, de São Manuel, a Ketili de Barra Bonita, o Laércio de Lençóis, a Fernandinha de Ribeirão Preto, Marcolin de Botucatu. Tem mais o Edu, do Mazzarello, o Serginho do Marquês , o Alex da AABB, o Zuza de Guarulhos, João Mauricio do Brasília, Chiquinho do Estadual São Paulo, Geraldo do São Paulo da Cruz.. O Xuxa do Hand Positivo e o Zé, do Carmelinda. O Marcelo do Campos Salles e o Kadu, da Freguesia., cujo nome sequer é remotamente parecido com Carlos Eduardo.
Para explicar estes caras – e, por extensão, a mim mesmo – só sendo piegas. Mas isso já fui lá em cima, no primeiro parágrafo.
Ah! Conheço o Xexa, também. Desde que ele era um moleque de 16 anos que, pela primeira vez, fora convocado para uma seleção adulta. Ficamos no mesmo quarto de hotel em Fortaleza, junto com o Fabio Banana, que o chamava de Xengui. Ele éaquele que tentou se afastar e não conseguiu. Voltou como trabalho voluntário junto ao Mosteiro São Geraldo e Colégio Santo Américo. Mas conhecer o Xexa não quer dizer nada: todo mundo conhece. Até o “Seu” Fábio Lazzari.
Talvez ele até já tenha ouvido falar de mais um ou dois desta lista..
Porque estou listando essa galera? Não é uma homenagem. Não precisam. Na verdade, a maior parte deles é avessa a coisas como esta. O motivo é outro: quem pretende trabalhar com, no ou para o Handebol, só conseguirá fazê-lo se conhecer e levar em consideração os sacrifícios que estas pessoas fazem.
Sacrifício soa exagerado e piegas? Que outro adjetivo você teria para os três divórcios do Martins?
SUN TZU, NERSO DA CAPETINGA... TANTO FAZ.
Sun Tzu deve ter dito que para estar à frente de um exército, é preciso conhecer seus soldados. Se não disse, um caipira anônimo o fez muito bem:”- Cunheço meu gado, sô!”
Este é o maior dentre os inúmeros motivos que fazem de Fábio Lazzari um péssimo presidente. Depois de duas décadas na FPH, ele não conhece a modalidade. Não sabe o que move as pessoas que fazem dela o principal moto de suas vidas, nem imagina que as dificuldades enfrentadas por estes que listei acima, se repetem, em grau variado, em todas as equipes que estão hoje na Federação.
Em recente palestra a professores da rede municipal, uma resposta a um deles me levou a dizer que temos apenas uma quadra de handebol no Brasil. Pode-se jogar em várias, mas o Baetão, em São Bernardo, é a única que tem apenas as linhas demarcatórias de handebol. Não é poliesportiva. È uma quadra de handebol.
Isso ilustra perfeitamente uma constataçãoque,ao invés de ignorada, deveria ser o ponto de partida no planejamento estratégico da FPH. Eu sei, eu sei. É piada colocar planejamento estratégico e FPH na mesma frase, mas a constatação - mais do que óbvia - é a seguinte: pessoas como nós à parte, o handebol não é o primeiro esporte de ninguém.
De nenhum clube, de nenhuma prefeitura (desde que São Bernardo e Metodista diversificaram seusinvestimentos ), de nenhuma televisão, de nenhuma parcela da mídia esportiva e nem mesmo do presidente da FPH: o livro que escreveu, depois de décadas à frente dafederação é sobre futebol. Como exemplo, tomemos a Prefeitura de Guarujá, que disputava a Liga Metropolitana, a custos irrisórios e largou a competição no meio para canalizar toda a verba para a natimortaNossa Liga de Basquete. Quando as atletas reclamaram, desfizeram a equipe.
Em outras palavras, isso significa que qualquer pequeno obstáculo pode levar um presidente de clube ou um secretario de esportes a desistir do handebol. Essa premissa deveria ser a base do planejamento (eh,eh) da FPH, seu objetivo principal.
Facilitar o acesso, estimular a prática. Como faz isso? Eu mostro.
Escute essa.
O São Paulo Futebol Clube teve agendada uma partidaCadete Feminino para Guarulhos. Deixando de lado os gastos com alimentação e transporte, o jogo ficou em seiscentos reais. Por que tanto? Porque a federação escalou dois árbitros do interior, mesmo com diversos morando na cidade,aumentando em muito a ajuda de custo com transporte. Como se fosse pouco, escalou o árbitro mais caro do quadro - internacional e olímpico - para um jogo que teve uma diferença, previsível, maior que dez gols entre as equipes. Eu, aqui no meu canto, não entendo porque não foi designado algum membro daquela familia guarulhense que assina como árbitro nas prestações de conta da FPH para a Secretaria da Juventude. Não pode ser apenas porque nenhum deles apita.
Todos nós sabemos que os responsáveis pelo handebol do São Paulo FC lutam com enormes dificuldades para que a modalidade sobreviva no clube, que os investimentos foram drasticamente reduzidos, que a equipe mirim foi dissolvida. A federação sabe disso. Sabe e resolveu colaborar cobrando seiscentos paus por um jogo que poderia custar duzentos, se tanto. Como se fosse um deputado, se lixou para a grana do São Paulo.
A mentalidade parece ser a das pessoas que confundem esporte com futebol: “- O que é seiscentos “conto” pra quem paga salário do Ceni, Dagoberto, Hernanes etc...”
Quem planeja sabe que, com compromissos desta ordem, qualificar qualquer gasto como INÚTIL é muito fácil. A FPH está tornando nosso esporte INÚTIL
A relação da FPH com os federados deveria ser de parceria. Acontece, infelizmente, que quem conviveu com políticos corruptos boa parte da vida não aprendeu o que exatamente significa ser parceiro. Sabe mais de ser cúmplice.
O QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO JOGANDO?
Esta era uma pergunta que eu fazia frequentemente quando dirigia minhas equipes. “Não quero que vocês joguem handebol. Tem que jogar headbol.!Este esporte tem que ser jogado com a cabeça!”
Este me parece ser o grande problema do handebol brasileiro hoje em dia. Está longe de ser o único, mas é o de mais difícil solução.
Já tivemos o tempo da falta de divulgação – aquele em explicávamos que “ handebol é um futebol jogado com as mãos”, o tempo da falta de intercâmbio, da falta de condiçõesde treinamento. Isto está superado.
Acontece que trazer o barro para dentro da oficina pode ser um trabalho difícil, mas não requer tanto talento assim. Transformar esta massanuma escultura é outra conversa. O handebol brasileiro tinha uma carência tão grande de tudo, que acabamos por confundir providenciar o mínimo indispensável com evolução. Apenas providenciamos o barro. Intercâmbio e condição de treinamento todo mundo tem. Em se tratando de equipes olimpicas, melhores do que as nossas. Por isso, talvez, que olimpiada depois de olimpiada a equipe masculina continua sendo aquela que os europeus contam como ponto ganho.
Temos três jogadores na Europa. Vários vão, jogam em times de segundo e terceiro escalões e voltam jogando pior. Dos que ficaram, dois são pontas, uma posição que exige características físicas mais próximas das nossas, o que explica o bom desempenho. O Bruno é uma exceção, mas uma exceção para o Brasil. As seleções européias tem de três a quatro Brunos em papéis coadjuvantes. Não tivemos Duijshbaev, não temos Balic, não temos cabeça. E cabeça é tudo que falta ao feminino.
Temos um time que encara em igualdade de condições qualquer equipe do mundo... e sempre perde. Encara, porque técnica e fisicamente não devemos nada a nenhuma delas. Perdemosporque jogamos handebol. Nesse nível de igualdade, o jogo é headbol. Quem não jogar com a cabeça, vai perder.
Não temos uma armadora. Nenhuma. Isso, de certa forma ,equivale a ter a melhor equipe do mundo com uma goleira infantil. A equipe masculina da Croácia pode abrir mão de Ivano Balic contra o Brasil. Contra um time igual, sua capacidade de organização certamente faria falta, provavelmente a ponto de perder medalha.
Mesmo nesta maravilhosa ehistórica vitória contra a Coréia, perdemos a cabeça. E o mesmo lance que nos deu esta vitória, repetido por duas vezes contra a Alemanha nos fez perder o jogo. Não foi nada planejado e executado com a perfeição resultante de muito treinamento.Diferente do gol do Bruno contra a Argentina, em Sâo Domingo, foi na raça, na louca. .Tomara que aconteça de novo, mas ganhar na loteria várias vezes é coisa para anões do orçamento.
Pior do que não ter uma armadora, sequer temos uma boa cabeça no banco. Importamos um técnico de quinta categoria - que agiu de forma profundamente antiética quando assistente de Alberto Rigolo na seleção masculina - incapaz de perceber, como qualquer técnico de colégio percebeu, que Gorbcz, maravilhosa jogadora húngara,precisava de marcação especial. Um técnico que aceitou passivamente o gol irregular que empatou o jogo. Qualquer um menos incapaz armaria um escândalo que , no mínimo, levaria o caso para julgamento. O Gian Carlos, de Londrina, fez isso na Liga Nacional, mesmo sem ter razão. Juan deveria brigar e não permitir o fechamento da súmula.
Apenas para esclarecer, se na cobrança de um tiro, o jogo acaba ANTES da bola estar dentro do gol, este tiro deve ser recobrado. Como comparação, William Lima esclareceu que César Cielo tem uma largada excepcional. Entre ouvir o tiro de partida e tirar os pés da plataforma demora 0,67 segundos.
Será que a atleta húngara que empatou o jogo é tão extraordinária que conseguiu ouvir o apito, girar, levantar o braço, executar o arremesso e fazer a bola percorrer MAIS de nove metros em UM segundo?
E porque a confederação brasileira não se manifestou a respeito?
TORCEDOR AZARADO
Por motivos relacionados à ESPN Brasil - explico em outro post - e ao tanto que gosto de handebol, decidi que iria torcer para a seleção de basquete dançar no pré-olimpico. Que fiquem fora de todas olimpíadas.
Mas não deu. Na hora em que a bola começou a rolar, eu me percebi muito puto porque as bolas de três não caiam, ou quando a Alemanha, muito cedo, abriu a diferença que acabou com as nossas - éééé, nossas - chances. Pensei na camisa amarela, na ultima chance do Marcelinho, na frustração de amigos como José Medalha. Eles não tem culpa pelo que o Trajano faz. Talvez nem o próprio Trajano tenha ( me explico depois, já disse).
Dias depois, estava no computador trabalhando enquanto o Palmeiras jogava contra o Grêmio. Aos 17 do segundo, gol do Palmeiras. " Ôôpa! Vou dar um break para ver o jogo!" Entre sair do PC e me acomodar no sofá o Grêmio empatou.
Passam mais três dias e a situação se repete. O Palmeiras da TV mete um a zero no Flamengo, aos 4 do segundo . Saio do computador correndo para a televisão. Que sofá o que!! Desliguei. Vê lá se o Flamengo empatou.
Hoje não tive a mesma presença de espirito. De novo dando um trampo no computador, vi na página do Uol: faltando três voltas, Felipe Massa está fazendo uma grande corrida. Fui ligar a TV e, antes de sentar no sofá, o motor do cara estava fumando.
Depois dessa, só me resta torcer contra o Handebol do Brasil em Pequim.
E pedir desculpas à Confederação de Basquete e ao " grande dirigente " que é este Grego. Eu não devia ter mudado de idéia.
Desculpa aí. A culpa é minha.
DICA DO DIA
Stratovarius - Forever Pra Florinha, com saudades
The winter of my life came so fast
Memories go back to childhood(...) To days I still recall
Oh how happy I was then There was no sorrow There was no pain(...)
I never stayed anywhere I'm the wind in the trees Would you wait for me forever?
NA PAREDE DA MEMÓRIA
Diferente da parábola que normalmente desenhava no ar, a bola se aproximava em linha reta. Eu, correndo muito, não a perdia de vista. Com aquela grande angular que os técnicos costumam chamar de visão periférica, fotografava a maior parte do Luna Park. Na imagem que hoje - diria Belchior- é um quadro na parede da minha memória, via o Montanha no centro da quadra, com o rosto apreensivo e uns sete mil argentinos ao seu redor, sem rosto algum. Diferente do que acontecia na parábola desenhada, ela não se aproximava dos meus olhos. Vinha numa altura entre os joelhos e os pés.
Assim como eu, todos viram que a bola vinha baixa. O goleiro argentino viu que a bola vinha baixa. Pensei “- Porra, isso não é hora para o William deixar de ser perfeito! Sempre vem na mão!” Estava valendo vaga na final do Panamericano. Se eu parasse a corrida para pegar a bola, adeus contra ataque. Decidi não parar.
Perto da linha lateral, na altura dos nove metros, a vi bater no chão entre mim e a marca de sete. Também vi o Montanha gritar “- Não deixa bater!”, enquanto a bola, ganhando extensão por culpa do ângulo baixo em que tocou no solo, entrava na área argentina. Não ouvi o que o Montanha disse. Pela cara que fez, talvez merda. O goleiro gringo relaxou. Práticamente caminhou na direção da bola, que estava a uns 40 centímetros do chão.
Eu, ainda em velocidade, dei meus três passos e saltei numa paralela, como um goleiro de futebol fazendo uma ponte em pênalti batido no canto baixo. Alcancei a bola. O gringo, que abaixava para pegá~la, sentiu um vento na orelha direita e olhou para trás, a tempo de vê-la bater no ângulo alto e depois na rede. Os sete mil argentinos eram um só murmúrio: “ –aaaaaahhh...”
Vi a seleção cubana, que estava sentada perto do gol argentino,gritando e batendo palma- estavam torcendo muito pra nós. Depois vi o banco do Brasil, onde a galera não parava de pular. Não vi o Montanha nesta hora. Mas, conhecendo-o como conheço, posso vê-lo numa espécie de sorriso irônico dizendo para si mesmo: “- Eu devia saber...”
Em momentos como este - em que você supera as mais altas expectativas, quando pessoas que confiam muito em você se surpreendem, lhe vendo oferecer ainda mais, em que as pessoas a seu lado vêem você como alguém dotado de um talento incomum – em momentos como este, você se sente um ser humano especial: você é tudo o que queria ser. Diria que é uma epifania, se soubesse o que significa..
Fomos para a final. Ganhamos o jogo na segunda prorrogação. Não por causa deste gol, mas também por causa dele. Tudo isso aconteceu no primeiro tempo. Os candidatos a herói são outros. Nei, Teixeira, Serginho, que entrou no lugar do William, desqualificado. O próprio Montanha que, até onde me lembro, jogou muito em cada um dos 100 minutos daquela partida.
No dia seguinte quando, na final, éramos apresentados ao público, após a apresentação dos cubanos, o Luna Park todo era uma vaia.
De novo o Montanha:
“- Meu, olha isso! ”
“ - Deixa!-respondi - espera chegar minha vez...”
Me jogou um olhar reprovador, e fez valer sua posição de capitão:
“- Você não vai fazer nada, Guru!”
“ - Tá bão! Espera pra ver!”
Demorou um pouco até chegar ao número 11 e o barulho foi diminuindo.Eu achei que merecia uma vaia melhor e, quando anunciaram meu nome, naturalmente dei um passo à frente. Mas não levantei o braço.
Com os dedos em posição de afetado-segurando-chícara, segurei as beiradas do calção como um tutu e, delicadamente, fiz uma reverénce: demi- plié para esquerda, demi-plié para a direita, com a cabeça inclinada num sorriso falso. Uma orgulhosa bailarina de cinco anos. Aí sim, tive a vaia que merecia. Os sete mil argentinos agora pareciam quatorze. Mas quem não era argentino não parava de rir.
Menos o Montanha. Ele deu um sorriso discreto.
NO LUNA PARK, DA ESQ PARA DIR. DE CIMA PARA BAIXO:
Gabriel, Simões, Tognini,William, Teixeira, Sergião, Montanha, Borracheiro, Nei e Marin
Joaquim, Ziza, Everaldo, Marquinho, Chú, Hamilton, Collin e Serginho
PICTURES AT AN EXIBITION
Falar em parede da memória me traz imediatamente à lembrança “Pictures at na Exibition”, uma peça clássica que, para roqueiros da minha geração, foi rascunhada por Modest Mussorgsky e passada a limpo por Emerson, Lake e Palmer.
Em 1974, não havia sequer um profissionalismo incipiente no handebol brasileiro. Uma ajuda de custo para alguns. Eu era o único a receber no Tênis Clube Paulista, já que havia saído do Tietê sob a promessa solene de que me pagariam o táxi para ir treinar. Pegava o Metro e andava alguns quarteirões para ficar com uns trocados. O Corinthians, que tinha William , Montanha, Giba, Nigro e Alberto Rigolo também oferecia alguma coisa. Acho que começou comigo, mas não posso ter certeza da cronologia. De qualquer forma, a maior compensação – para quem estava na seleção brasileira – eram as viagens.
Neste ano o destino era a Itália, Copa Latina de Juniores. Escalas em Lisboa, Madrid, Paris e, principalmente, galera liberada depois da competição para aproveitar a passagem. Foi o ano de conhecer celebridades. Emerson Fitipaldi,Ronnie Peterson e Clay Regazzoni ente elas. Quando a história é contada pelo Mané, até François Cévert – que já tinha morrido.
Eu, William e o mineiro Gustavo fomos de Roma a Paris. Nas Galeries Lafayette encontramos Carlos Alberto Torres acompanhado da - então? – esposa Terezinha Sodré. Voltavam de Munique, onde ele havia participado da despedida de Beckenbauer. Ficou uma hora conversando conosco, enquanto a pretensa diva ficava vasculhando todos os cabides da loja com cara de quem não gostava. De nós e das roupas.
Saímos e, na Champs Eliseés. encontramos metade do nosso time:Alain, Lamônica, Vinicius, Pereira, Fábio Banana e Mané . Lá, reparamos que todos aqueles postes rococó que enfeitam a avenida, reservados à publicidade,estavam impregnados de cartazes anunciando a temporada do Yes, na época com sua melhor formação - Rick Wakeman e tudo - no Palais du Sport Port de Versailles. Infelizmente, estavam cobertos de letras vermelhas SOLD OUT !, em inglês, o que na França é de se estranhar.
Eu e o Banana fomos assim mesmo. Chegamos a tempo de ver uma galera furiosa tentando arrombar portões enormes de ferro. Estávamos encurralados entre eles e os gendarmes, que vinham em sua direção, de preto, com seus escudos transparentes e cassetetes. Sem ter pra onde correr, fomos na direção da policia, para não levar porrada no portão. De repente, estávamos no meio deles que - não entendi até hoje porque – passavam aos montes por nós sem nos tocar. Um francês que estava atrás dos policiais, olhava para nós e, enquanto fingia parafusar o indicador na testa, gritava “ – Vusefú! Vusefú!”
Entendemos mais ou menos e começamos a esbanjar francês: “ Loco o scambau, Meciê!!” Nu sôme eportif bresilian! Venê ici sóleman pur vuá cete show. Põe nóis pa dentro...dan.. lá dân ...pur amur di Diê !!! O cara entendeu o “sportif brezilien” e respondeu “- OOOHHH! Brezilien? Pelé.. Rivelinô...Gersôn...”E nós: “- Uí!Uíí! Tus notramí!!!”
Você não vai acreditar: o camarada nos fez um sinal para seguí-lo, abriu uma portinha e nos colocou para dentro! Acabando de ultrapassar “The Gates of Delirium”, pus a mão no bolso e perguntei: “- Combiã? “. Com uma expressão a principio assustada e depois amistosa, o cara deu dois tapinhas no coração e falou “Rien, rien !”. Grande Meciê ! Meio envergonhado, aprendi que nem tudo é pela grana. Trago essa comigo até hoje.
Enquanto subia escadas, abençoando a seleção de 70, o palco apareceu na minha frente e nele, Rick Wakeman, com aquela capa enorme de azul brilhante,cabelo dourado até o meio das costas, cercado por todos os keyboards do mundo, tocando um Haendel meio perdido num medley de Six Wives of Henry VIII: “ A –LE-LUIA! A-LE-LUIA! ALÊ – ÊÊ – LÚÚÚ – IIII – AAHHHH!
Foi uma experiência mágica, principalmente se considerarmos que show de banda estrangeira no Brasil era matéria de sonho. Ninguém além de Alice Cooper. Mesmo as nacionais eram poucas.
Fascinado, eu pensava, agradecido: “Deus te abençoe, Riva!”
Considerando que você chegou até aqui - muito obrigado -certamente está perguntando: "- Mas Pictures at an Exibition não é Emerson, Lake and Palmer?"
Pois é. No show do Yes ficamos sabendo que eles faziam temporada no mesmo final de semana no Wembley Pool, em Londres e, como o Mané tinha uns amigos da GV morando lá, fomos todos – exceto William e Gustavo - para Gare du Nord, pegar o trem noturno para Londres. Os dois preferiram o caminho de volta, aproveitando uma escalazinhaem Lisboa, para conhecer a cidade. Chegaram quando estouroua Revolução dos Cravos e foram obrigados a permanecer no país - com fronteiras fechadas - ouvindo Gôndola Vila Morena, sem dinheiro nem para comer.