Diferente da parábola que normalmente desenhava no ar, a bola se aproximava em linha reta. Eu, correndo muito, não a perdia de vista. Com aquela grande angular que os técnicos costumam chamar de visão periférica, fotografava a maior parte do Luna Park. Na imagem que hoje - diria Belchior- é um quadro na parede da minha memória, via o Montanha no centro da quadra, com o rosto apreensivo e uns sete mil argentinos ao seu redor, sem rosto algum. Diferente do que acontecia na parábola desenhada, ela não se aproximava dos meus olhos. Vinha numa altura entre os joelhos e os pés.
Assim como eu, todos viram que a bola vinha baixa. O goleiro argentino viu que a bola vinha baixa. Pensei “- Porra, isso não é hora para o William deixar de ser perfeito! Sempre vem na mão!” Estava valendo vaga na final do Panamericano. Se eu parasse a corrida para pegar a bola, adeus contra ataque. Decidi não parar.
Perto da linha lateral, na altura dos nove metros, a vi bater no chão entre mim e a marca de sete. Também vi o Montanha gritar “- Não deixa bater!”, enquanto a bola, ganhando extensão por culpa do ângulo baixo em que tocou no solo, entrava na área argentina. Não ouvi o que o Montanha disse. Pela cara que fez, talvez merda. O goleiro gringo relaxou. Práticamente caminhou na direção da bola, que estava a uns 40 centímetros do chão.
Eu, ainda em velocidade, dei meus três passos e saltei numa paralela, como um goleiro de futebol fazendo uma ponte em pênalti batido no canto baixo. Alcancei a bola. O gringo, que abaixava para pegá~la, sentiu um vento na orelha direita e olhou para trás, a tempo de vê-la bater no ângulo alto e depois na rede. Os sete mil argentinos eram um só murmúrio: “ –aaaaaahhh...”
Vi a seleção cubana, que estava sentada perto do gol argentino, gritando e batendo palma- estavam torcendo muito pra nós. Depois vi o banco do Brasil, onde a galera não parava de pular. Não vi o Montanha nesta hora. Mas, conhecendo-o como conheço, posso vê-lo numa espécie de sorriso irônico dizendo para si mesmo: “- Eu devia saber...”
Em momentos como este - em que você supera as mais altas expectativas, quando pessoas que confiam muito em você se surpreendem, lhe vendo oferecer ainda mais, em que as pessoas a seu lado vêem você como alguém dotado de um talento incomum – em momentos como este, você se sente um ser humano especial: você é tudo o que queria ser. Diria que é uma epifania, se soubesse o que significa..
Fomos para a final. Ganhamos o jogo na segunda prorrogação. Não por causa deste gol, mas também por causa dele. Tudo isso aconteceu no primeiro tempo. Os candidatos a herói são outros. Nei, Teixeira, Serginho, que entrou no lugar do William, desqualificado. O próprio Montanha que, até onde me lembro, jogou muito em cada um dos 100 minutos daquela partida.
No dia seguinte quando, na final, éramos apresentados ao público, após a apresentação dos cubanos, o Luna Park todo era uma vaia.
De novo o Montanha:
“- Meu, olha isso! ”
“ - Deixa!-respondi - espera chegar minha vez...”
Me jogou um olhar reprovador, e fez valer sua posição de capitão:
“ - Você não vai fazer nada, Guru!”
“ - Tá bão! Espera pra ver!”
Demorou um pouco até chegar ao número 11 e o barulho foi diminuindo.Eu achei que merecia uma vaia melhor e, quando anunciaram meu nome, naturalmente dei um passo à frente. Mas não levantei o braço.
Com os dedos em posição de afetado-segurando-chícara, segurei as beiradas do calção como um tutu e, delicadamente, fiz uma reverénce: demi- plié para esquerda, demi-plié para a direita, com a cabeça inclinada num sorriso falso. Uma orgulhosa bailarina de cinco anos. Aí sim, tive a vaia que merecia. Os sete mil argentinos agora pareciam quatorze. Mas quem não era argentino não parava de rir.
Menos o Montanha. Ele deu um sorriso discreto.

NO LUNA PARK, DA ESQ PARA DIR. DE CIMA PARA BAIXO:
Gabriel, Simões, Tognini,William, Teixeira, Sergião, Montanha, Borracheiro, Nei e Marin
Joaquim, Ziza, Everaldo, Marquinho, Chú, Hamilton, Collin e Serginho
Falar em parede da memória me traz imediatamente à lembrança “Pictures at na Exibition”, uma peça clássica que, para roqueiros da minha geração, foi rascunhada por Modest Mussorgsky e passada a limpo por Emerson, Lake e Palmer.
Em 1974, não havia sequer um profissionalismo incipiente no handebol brasileiro. Uma ajuda de custo para alguns. Eu era o único a receber no Tênis Clube Paulista, já que havia saído do Tietê sob a promessa solene de que me pagariam o táxi para ir treinar. Pegava o Metro e andava alguns quarteirões para ficar com uns trocados. O Corinthians, que tinha William , Montanha, Giba, Nigro e Alberto Rigolo também oferecia alguma coisa. Acho que começou comigo, mas não posso ter certeza da cronologia. De qualquer forma, a maior compensação – para quem estava na seleção brasileira – eram as viagens.
Neste ano o destino era a Itália, Copa Latina de Juniores. Escalas em Lisboa, Madrid, Paris e, principalmente, galera liberada depois da competição para aproveitar a passagem. Foi o ano de conhecer celebridades. Emerson Fitipaldi, Ronnie Peterson e Clay Regazzoni ente elas. Quando a história é contada pelo Mané, até François Cévert – que já tinha morrido.
Eu, William e o mineiro Gustavo fomos de Roma a Paris. Nas Galeries Lafayette encontramos Carlos Alberto Torres acompanhado da - então? – esposa Terezinha Sodré. Voltavam de Munique, onde ele havia participado da despedida de Beckenbauer. Ficou uma hora conversando conosco, enquanto a pretensa diva ficava vasculhando todos os cabides da loja com cara de quem não gostava. De nós e das roupas.
Saímos e, na Champs Eliseés. encontramos metade do nosso time:Alain, Lamônica, Vinicius, Pereira, Fábio Banana e Mané . Lá, reparamos que todos aqueles postes rococó que enfeitam a avenida, reservados à publicidade, estavam impregnados de cartazes anunciando a temporada do Yes, na época com sua melhor formação - Rick Wakeman e tudo - no Palais du Sport Port de Versailles. Infelizmente, estavam cobertos de letras vermelhas SOLD OUT !, em inglês, o que na França é de se estranhar.
Eu e o Banana fomos assim mesmo. Chegamos a tempo de ver uma galera furiosa tentando arrombar portões enormes de ferro. Estávamos encurralados entre eles e os gendarmes, que vinham em sua direção, de preto, com seus escudos transparentes e cassetetes. Sem ter pra onde correr, fomos na direção da policia, para não levar porrada no portão. De repente, estávamos no meio deles que - não entendi até hoje porque – passavam aos montes por nós sem nos tocar. Um francês que estava atrás dos policiais, olhava para nós e, enquanto fingia parafusar o indicador na testa, gritava “ – Vusefú! Vusefú!”
Entendemos mais ou menos e começamos a esbanjar francês: “ Loco o scambau, Meciê!!” Nu sôme eportif bresilian! Venê ici sóleman pur vuá cete show. Põe nóis pa dentro...dan.. lá dân ...pur amur di Diê !!! O cara entendeu o “sportif brezilien” e respondeu “- OOOHHH! Brezilien? Pelé.. Rivelinô...Gersôn...” E nós: “- Uí!Uíí! Tus notramí!!!”
Você não vai acreditar: o camarada nos fez um sinal para seguí-lo, abriu uma portinha e nos colocou para dentro! Acabando de ultrapassar “The Gates of Delirium”, pus a mão no bolso e perguntei: “- Combiã? “. Com uma expressão a principio assustada e depois amistosa, o cara deu dois tapinhas no coração e falou “Rien, rien !”. Grande Meciê ! Meio envergonhado, aprendi que nem tudo é pela grana. Trago essa comigo até hoje.
Enquanto subia escadas, abençoando a seleção de 70, o palco apareceu na minha frente e nele, Rick Wakeman, com aquela capa enorme de azul brilhante, cabelo dourado até o meio das costas, cercado por todos os keyboards do mundo, tocando um Haendel meio perdido num medley de Six Wives of Henry VIII: “ A –LE-LUIA! A-LE-LUIA! ALÊ – ÊÊ – LÚÚÚ – IIII – AAHHHH!

Foi uma experiência mágica, principalmente se considerarmos que show de banda estrangeira no Brasil era matéria de sonho. Ninguém além de Alice Cooper. Mesmo as nacionais eram poucas.
Fascinado, eu pensava, agradecido: “Deus te abençoe, Riva!”
Considerando que você chegou até aqui - muito obrigado -certamente está perguntando: "- Mas Pictures at an Exibition não é Emerson, Lake and Palmer?"
Pois é. No show do Yes ficamos sabendo que eles faziam temporada no mesmo final de semana no Wembley Pool, em Londres e, como o Mané tinha uns amigos da GV morando lá, fomos todos – exceto William e Gustavo - para Gare du Nord, pegar o trem noturno para Londres. Os dois preferiram o caminho de volta, aproveitando uma escalazinha em Lisboa, para conhecer a cidade. Chegaram quando estourou a Revolução dos Cravos e foram obrigados a permanecer no país - com fronteiras fechadas - ouvindo Gôndola Vila Morena, sem dinheiro nem para comer.
Nós outros, a caminho de Londres, dormíamos no trem até Callais e depois na balsa que nos levaria a Dover. Menos o Alain - sempre ele - que ficou xavecando umas finlandesas, com o Lamônica a tiracolo. Chegando em Londres, fomos até a casa dos amigos da GV e, de lá, ao ginásio comprar ingressos. O Alain não quis comprar, não conhecia a banda. O Mané perguntou se eram famosos. Quando respondemos que sim, comprou, para dizer aos amigos que tinha visto o show.
À noite o Alain mudou de idéia: “ -Vou com vocês!”. Dissemos que não conseguiria ingresso, mas foi assim mesmo. E conseguiu, de um cambista. Pelo mesmo preço que pagamos a arquibancada lá no fundo, um ingresso para a terceira fila, no centro da platéia. Não quis trocar comigo de jeito nenhum.
A vida não e justa, mesmo.
Mesmo lá do fundo, fiquei maravilhado vendo um solo de onze minutos de Carl Palmer sobre uma plataforma giratória e gongos enormes atrás da bateria, vendo Greg Lake cantar Lucky Man – sou sim, sou sim - e os fogos saindo do teclado portátil que Keith Emerson levou para o meio de uma platéia comportada demais para meu gosto. Não fosse o cheiro de maconha – os baseados eram queimados ao lado dos guardas, impassíveis como no Palacio de Buckigham – e os gritos ao final das músicas, seria igual a uma platéia de ópera
Quando nos encontramos na saída, cheio de inveja, perguntei ao Alain: “- E aí? Gostou, pelo menos ? Respondeu : “ – Meu, eu estava morrendo de cansaço, fiquei a noite inteira acordado na balsa... dormi o show inteiro!”

No Natal daquele ano, ganhei da minha mãe um disco histórico: o album triplo, gravado ao vivo no Wembley Pool.
Quando coloquei na vitrola ouvi: " Welcome back, my friends, to see the show that never ends! Ladies and Gentlemen...Emerson, Lake and Palmer!!! Em meio à gritaria que se seguiu, estava minha voz. Não sei aonde, mas estava lá, mixada ao ronco do Alain. É minha contribuição para a história do Rock.
Não bastasse tudo isso, ainda tivemos, eu e o Mané, nosso quinhão de Revolução dos Cravos e encontro com Emerson Fittipaldi, no Hotel Barajas, em Madrid, onde ficaram os pilotos durante o GP de Jarama. Moleques folgados que éramos, fomos falar com o cara que era só tricampeão mundial de Formula 1, achando que ele tinha meio que a obrigação de nos colocar para dentro do autódromo, sem pagar. “-Meu, a gente é brasileiro!”. Afinal, depois do show do Yes, qualquer coisa era fácil. O mais absurdo é que ele ficou uns vinte minutos nos atendendo e explicando porque aquilo não era possível. Grande Emerson!
São coisas, dentre várias outras, que só poderiam acontecer naquela época. Mas, estas várias outras são quadros de uma outra exposição.
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