
Claro que não dou mais este IBOPE todo, mas em todas as delegações poli esportivas das quais fiz parte - JUbs e JEBs por exemplo - ouvíamos isto.
Quando, na Olimpíada de Sidney, André Plihal, entrevistando as meninas do basquete, perguntou qual era o atleta mais legal da delegação, ouviu como resposta “ - O Guga!” “ - E os mais bonitos?” perguntou. “ - Os meninos do handebol!”
Pois, então. Nossos herdeiros estão mantendo a tradição.
Não sei se na minha época era verdade, mas, hoje certamente é e não digo isso por modéstia.
Estou tentando dizer que isso não é um acaso. É uma espécie de “prova empírica” de que o handebol é um esporte mais completo do que os outros, no que se refere ao desenvolvimento harmônico do corpo. A natação era um adversário de respeito, até que a altura dos caras passou a ser ítem fundamental. Essa procura pelo biótipo ideal para cada esporte - coletivos mais que os outros - privilegiam formas anormais, incomuns. O atleta de alto nível é, hoje, quase uma caricatura. Um cara alto e forte é bonito, mas um pirulão de dois e dez é estranho. Se tiver uma carinha de bebê, mais ainda. Os atletas do handebol são mais bonitos porque o biótipo ideal para prática da modalidade é o biotipo ideal para qualquer homem. Todo trabalho, portanto, é desenvolvido no sentido de tornar melhor uma pessoa normal.
Esta conversa - completamente inútil, é verdade - vem a propósito do esporte escolar.
Hoje em dia quase só se joga futsal nas escolas. Nas Olimpíadas da Prefeitura de São Paulo, a soma dos jogos de Handebol, Basquete e Vôlei mal dá para empatar. Somando os dois naipes, de qualquer uma destas modalidades, não chegamos ao número do Futsal Feminino. Imagino que na Olimpíada Escolar da Secretaria da Juventude do Estado o fenômeno se repita. Isso me parece preocupante porque, deixando de lado o fato de não ser olímpico, do ponto de vista da formação do aluno, Futsal é jogo, não esporte. As possibilidades de movimentação em quadra e movimento do corpo são restritas. Apenas a parte do corpo abaixo da cintura - nem toda ela, nem toda – é trabalhada. Os trabalhos anaeróbico e de braços apenas acontecem em caso de briga.
Houve um tempo - mil novecentos e guaraná com rolha, quando eu era colegial - em que a Secretaria da Juventude retirou o Futsal do calendário de suas competições, para não prejudicar o desenvolvimento dos outros esportes. A partir daí, o handebol iniciou uma trajetória que o tornou o esporte mais popular na rede escolar. A tal ponto, que a prefeitura de São Paulo obriga uma escola que, nas suas competições, inscreva equipe em Futsal ou Handebol, inscreva uma outra em Basquete ou Vôlei. Parece uma boa idéia. Parece. Na prática só faz aumentar o número WOs nas outras modalidades e diminuir o número das equipes de Handebol, embora ela seja, diferentemente do que se convencionou dizer, a segunda mais praticada. Segunda. O futsal é, disparado, a primeira.
Talvez seja a hora de uma reavaliação do papel do Futsal como instrumento da Educação Fisica Escolar. E lhe destinar um papel proporcional à sua utilidade. Banimento talvez seja um exagero, mas aumentar a faixa etária para pratica me parece indispensável. Seria menos nociva.
A massa praticante de esportes escolares é muito menor hoje. As modalidades mais praticadas são Wii, Play Station, www e, quem sabe, sexo. Trazer a criança para o esporte é muito mais difícil hoje do que foi na minha geração: a oferta de lazer - principalmente lazer do menor esforço - é muito grande. E trazer a criança para o Futsal, não é trazê-la para o esporte. Colocar o handebol no mesmo patamar é absurdo. A diferença entre os benefícios da prática de um e de outro é imensurável porque, como se sabe, os meninos do handebol são mais bonitos.
Já ouvi muita grita, ao expor esta opinião. Muitos professores foram boleiros e futebol de verdade não é uma opção nas escolas. Quanto às deficiências da modalidade como instrumento de formação, nenhum argumento contrário. Fala-se apenas que não se pode lutar contra a cultura do povo.
Mesmo não sendo este sequer um argumento, pode-se contrapor que a cultura é a do Futebol. Não do Futsal, do Pebolim ou Botão.
Se é pra movimentar apenas dois membros, qualquer um destes nobres esportes serve.
De qualquer forma, não apenas se pode, como se deve lutar contra o estabelecido. É exatamente isso que move o mundo. Temos pequenos exemplos, como a queda do Muro de Berlim, da Bastilha, a Revolução Russa, a Industrial, a Independência do Brasil, a Inconfidência Mineira... pois é, nem sempre termina bem.
Mas sempre termina com Bernard Shaw, aquele teatrólogo inglês a quem a mais bela atriz do seu tempo propôs a concepção de um filho:
“ - Já imaginou Bernard, uma criança com minha beleza e sua inteligência?”
“ - Lamento, minha cara! Não posso correr o risco de que aconteça o inverso!”
Ele, que era ainda mais inteligente do que a tal atriz supunha, disse também o seguinte:
“O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem insensato.”
Sou insensato, graças a Deus.
E bonito, também.
Sou um menino do handebol
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