
Lars Grael ficou comovido com a vitória do Rio de Janeiro em Copenhagen.
Lars, além de fantástico iatista, campeão olímpico, foi o dirigente maior do esporte amador do Estado de São Paulo durante alguns anos.
Lars nos lembrou que, a despeito de toda a felicidade que dirigentes brasileiros pudessem estar sentindo, é preciso investir na base, que está fraca.
Lars, do alto de sua experiência, nos explicou que a base está fraca porque, de há muito, a escola está dissociada da atividade física.
Lars, perguntado sobre qual seria a solução, nos indicou o caminho: a realização de uma grande olimpíada estudantil.
Lars, Lars, tanto currículo, tanta experiência, para falar uma bobagem deste tamanho...
Lars, permita que lhe refresque a memória: a Secretaria de Estado que você dirigiu realiza uma destas olimpíadas a um custo que sequer consigo imaginar – 2 milhões, 3 milhões? Mais, talvez?- mas que você conhece com precisão. Uma olimpíada
envolvendo toda a rede estadual de São Paulo, com treinamento pago aos professores pela Secretaria da Educação. Estimo que participem pelo menos 15.000 estudantes. Duvido que qualquer uma destas crianças chegue às olimpíadas. Do Rio ou qualquer
outra.
Lars, permita que eu lhe diga – estou brincando, sei que você não vai ler – que a Federação do Desporto Escolar do Estado de São Paulo organiza outra destas grandes olimpíadas, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação .
São cinco mil crianças competindo - APENAS NA CIDADE DE SÃO PAULO - de maio a novembro, em handebol, voleibol, basquete, futsal, natação, ginástica, judô, xadrez e tênis. Uma só categoria de atletismo reuniu 1200 crianças num
único dia de competição. As quadras da cidade receberam quase 4000 jogos. Parece fantástico e, de um certo ponto de vista, é mesmo. Infelizmente, menos fantástico do que poderia ser.
Lars, sabe o que mais me marcou durante nestes dois anos trabalhando na organização destes jogos? Foi um varredor do SESC, que eventualmente os sedia, me perguntando: “- De quem é a culpa destas crianças jogarem tão mal?” Duvido
que ele tenha visto um jogo de handebol antes daquele. Mesmo assim, sabia que estavam jogando mal.
Não respondi para ele, mas eu sei. Eu sei.
A culpa é de pessoas como você, que tem ou teve o poder de mudar alguma coisa e, acredita que a solução está em Eventos e não em Programas. Gente que ignora não apenas a opinião, mas a própria existência dos que trabalham sem recursos para melhorar
esta situação.
Lars, a solução passa longe de uma grande Olimpíada Escolar. Já existe. No plural.
A solução é fazer com que , sem desconsiderar seus enormes méritos, Jardim Irene, Gol de Letra e outros parem de falar em número de crianças atendidas e passem a falar em Inclusão Qualitativa.
Incluir, sem a perspectiva de continuidade, é fazer pela metade. Tem que incluir, motivar, descobrir o talento e encaminhá-lo. É preciso que o Clube Escola seja o que Prof. Francisco Dada gostaria que fosse, e não este um sete um eleitoreiro
que na prática é, por conta do dublé de médico e politico que está na secretaria de esportes. A criançada joga tão mal, tiozinho que varre o SESC, por culpa dele também.
Todos sabemos que o problema está na base, Lars. Quem não sabe nada de esporte, quem não sabe nada de educação física escolar, jornalista que só se interessa por futebol, todo mundo sabe. Isto é lugar comum. O problema é que poucos
sabem o que fazer a partir de constatado o óbvio.
O legado destas olimpíadas cariocas, não vai ser diminuição de violência, melhoria no transporte, na saúde ou no mercado de trabalho. Se os empresários forem espertos o suficiente, o grande legado será a criação e manutenção de PROGRAMAS
de iniciação esportiva de qualidade, como ponto de partida para uma política desportiva nacional.
A aceitação definitiva do esporte como instrumento de educação será, se tudo der certo, o legado das olimpíadas. Um instrumento que revele muitos campeões e, no processo, forme milhares de não campeões com mente e corpo mais saudáveis.
Um povo melhor.
É este o argumento que pode calar aqueles que acham que esta montanha de dinheiro deveria ser investida na saúde e educação.
Senhores do contra, este só não será um investimento em saúde e educação se formos burros o bastante para deixar a oportunidade passar.
Se nós soubermos aproveitá-la será,então, possível que o destino do esporte brasileiro seja entregue em mãos mais qualificadas do que as de um médico cuja afinidade com a área se resume a saber o resultado do jogo do Palmeiras, a dirigentes estudantis que
se reuniam em DAs e congressos do PC do B chamando os atletas da universidade de burros e alienados ou até a maravilhosos esportistas, como você, Lars.
Gente cuja preocupação é fazer grandes olimpíadas para quem não sabe jogar.
Sugiro que a abertura destas olimpíadas seja feita por um grande Corpo de Baile, composto por bailarinos que não sabem dançar, acompanhados por uma orquestra de gente que não sabe tocar.
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