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Cada figura...

Marco Tognini

* Crônica escrita em abril de 2000, para o Handebol News

 

Em 1978, num alojamento de Jogos Universitários Brasileiros, um jogador do Tênis Clube Paulista que fazia parte da equipe de handebol veio a  mim perguntar se poderia fazer a gentileza de conversar com o Prof. Lima Rosa, à época técnico do EC Sírio, onde eu atuava, sobre a possibilidade de se transferir para o clube. Uma situação nada extraordinária, não fosse este atleta Marco Tognini, desde juvenil atleta internacional e presença constante em seleções paulistas e brasileiras.

Tognini foi o último grande talento revelado pelo Tênis Clube Paulista, de tão importante papel na história do handebol no Brasil e atitudes como esta, um misto de modéstia e insegurança, eram sua assinatura.

 

A ele bastaria apresentar-se ao Sírio – ou a qualquer outro clube – e manifestar seu interesse, para ser aceito por um técnico agradecido. Eventualmente, o Tógui se tornou atleta do Sírio,  não lembro bem se naquele mesmo ano. Eu não continuei lá.  Nossos currículos  tem sete camisas em comum, entre clubes e seleções, mas nunca  jogamos em um clube ao mesmo tempo. Desencontros são uma constante na vida, ainda que Vinícius de Moraes sustentasse que ela é a arte do encontro.

 

Talento precoce, Tognini era com freqüência o mais novo da delegação e, por isso,  vítima constante de brincadeiras, que aceitava com desconcertante bom humor. Inteligente e dono de uma  ironia fina, estava sempre criando neologismos e novos usos para velhas palavras, tornando qualquer tipo de conversa interessante e engraçada. Esta era sua face Dr. Jeckill. 

Mr Hide era um atleta sério, que não aceitava uma derrota,  que treinava sem brincar, jogava sem arriscar e, embora tivesse condições técnicas para muito mais, raramente jogava fora de sua posição, a ponta esquerda, na qual tinha uma eficiência quase irritante O sorriso que sempre aparece nas fotos que procuro agora, nunca era visto dentro das quadras. Reaparecia depois dos jogos, independente do resultado, exceto numa única ocasião.

 

Em Buenos Aires, após a perda do Pan Americano para Cuba  e da vaga para o Mundial de Munique, o encontrei chorando, inconsolável. Tentei argumentar que era uma derrota esperada, afinal a equipe cubana era mesmo superior, que aquele vice campeonato era o primeiro título importante do Brasil... não adiantou. O motivo da mágoa era outro. Havia discutido de forma áspera com outro atleta da delegação e, para ele,  perder um amigo era muito pior do que perder um jogo, fosse  lá  o jogo que fosse.

 

Hoje , Tognini outra vez me faz ter a consciência de como é triste perder um amigo, me faz lamentar que os caminhos para os quais somos conduzidos nos afastem de pessoas que sequer chegam a saber o quanto gostamos delas.

 

O Tógui morreu no inicio do mês passado, com pouco mais de quarenta anos. Outra vez nos desencontramos. Mas, sabe-se lá por quanto tempo: todo mundo sabe que a vida é a arte do encontro. O que não sabemos muito bem é a dimensão que ela tem.

 

Jamil André

 

A FPH está perto de completar 70 anos. Muita gente contribuiu de forma decisiva para que tenhamos atingido este patamar que, mesmo longe do ideal, é de uma altura de dar vertigem àqueles que iniciaram a sua difusão.

 

Difícil afirmar, mas se existe um Pai do Handebol no Brasil, este deve ser Jamil André. Um senhor (mesmo jovem ele já tinha esta aura que impunha respeito) baixo, de fala anasalada e temperamento calmo, o Prof. Jamil era a voz do Handebol, numa época em que as Confederações não existiam. Várias modalidades, a nossa inclusa, eram subordinadas à CBD, que cuidava do futebol,  tri-campeão do mundo e uma espécie de trio elétrico a festejar a ditadura. A função básica do Professor Jamil era tirar verbas do futebol, para usá-las “naquele jogo que faz gol com as mãos”. Coisa pouca.

 

Percebeu como poucos a explosão que estava prestes a acontecer com a nacionalização e a incentivou convocando jogadores de Minas, Rio e Pará, mais preocupado com desenvolvimento da prática fora de São Paulo  do que com os resultados da equipe nacional, que de resto começava uma carreira internacional e tinha poucas chances de conseguí-los. Além da difusão, que acabou por levar Minas Gerais a vencer São Paulo na decisão do 1o  Campeonato Brasileiro Adulto, o Prof. Jamil  revelou  talentos grandiosos, como Vanderlei,  o Lelei de Minas, que até pouco tempo, com mais de 40 anos,  jogava uma enormidade em Minas e nos Jogos Regionais e Abertos do Interior, em São Paulo. Talvez jogue bem até hoje.

 

Foi esta visão renovadora, aliada a uma coragem que seu temperamento calmo conseguia esconder, que fez o Prof. Jamil convocar para a Seleção Brasileira Adulta dois garotos de 16 anos, um deles eu mesmo e o outro Horacinho, do Tênis Clube Paulista. Mais do que a coragem de convocar, o Prof. Jamil teve a ousadia de cortar um dos maiores nomes do Handebol brasileiro,  Santo Baldaccin, para levar o garoto Horacio aos Jogos Luso-Brasileiros de 1972. Jamil André ganhou,com sua ousadia renovadora, uma longa inimizade, que terminou quando da segunda eleição da recém-fundada CBHb.

 

Aqueles que fizeram a história do handebol  haviam, por armações sabe-se lá se politicas ou militares, perdido a primeira eleição. Santo e Jamil se uniram e tomaram nas mãos o destino do handebol brasileiro e, com a mesma visão ampla que Jamil sempre teve, abriram espaço, para,  entre outros, os professores. Marin, do Paraná e Manoel Luis de Oliveira, do Sergipe, hoje presidente da entidade.

 

O professor Jamil  André faleceu sem ter atingido seu maior objetivo: ver a Seleção Brasileira no patamar mais alto do Handebol mundial, realizando o sonho de todos nós ao disputar uma Olímpiada.  Mas, com certeza, muitos dos seus ”filhos”, vendo a equipe do Brasil entrar no Estádio Olímpico de Barcelona,  olharam para cima, pensando:

“Chegamos, Professor! Conseguimos ! ”.

 

A você, professor Jamil, aonde estiver, a nossa mais carinhosa reverência.

 

Collin Turnbull

  COLLIN  TURNBULL

 

O gênio sempre reconhece seu par. A mediocridade, no entanto, nunca enxerga além de seus limites.”

 

Esta frase, tem uma outra tradução - mais informal, digamos assim  - que ganhou popularidade em adesivos para carro: “ A inveja é uma merda". No entanto, náo é exatamente sobre este tipo de inveja que falo aqui. É sobre aquela saudável, que reconhece o talento. Nem o critico mais medíocre deixaria de reconhecer: Collin Turnbull era especial.   

 

Todo atleta de alto nível, seja qual for a modalidade que pratique, é um apaixonado pelo esporte. Qualquer esporte. Sabe e gosta de reconhecer as qualidades de atletas de ponta em esportes que talvez pratique como lazer. Quase todo atleta de seleção tem uma história de como jogava alguma outra modalidade, antes da dedicação exclusiva que o levou ao sucesso. Rogério Ceni, Raí, Montanaro e Hortência jogavam Handebol. William, do vôlei, era, até seus treze anos, um espetacular jogador de futebol, nas quadras da Congregação da Igreja Salete, em Santana, onde morava. Podem acreditar. Eu era um dos que, na hora do par ou ímpar, torciam para cair no time dele. O voleibol veio depois. Montanha, capitão da Seleção de Handebol durante anos, tinha uma enorme habilidade em qualquer esporte que resolvesse praticar, exceto natação -chegaria em segundo competindo com uma pedra

.

Todos tiveram, num determinado momento, que fazer sua opção. Ou melhor, quase todos.

 

Collin, um carioca de ascendência escocesa, teve dificuldade em escolher entre duas paixões. Como consequência, foi um caso raro em termos mundiais: um atleta de seleção nacional em duas modalidades esportivas, praticadas simultâneamente: Rugby e Handebol. Até o Michael Jordan do beisebol lhe tiraria o chapéu. Foi também o primeiro atleta do Rio de Janeiro a vestir a camisa da Seleção Brasileira, na Copa Latina da Itália em 1974.  Sua figura singular era uma espécie de cruzamento de Thor , o Deus Vicking, com Bezerra da Silva. Com cabelos de um amarelo dourado quase nos ombros, num corte chanel ( isto no início dos 70! ), um e noventa e tantos  de altura, Collin era, sozinho,  uma ameaça à hegemonia paulista. Mas seu sorriso fácil, temperamento dócil, jeito malandro e uma sincera humildade desfaziam logo a bronca da primeira impressão. Só ficamos sabendo que ele era da seleção de Rugby quando vimos a escalação da equipe num Sul Americano, publicada pela Folha de São Paulo. Ele não falava para ninguém.Não dava para não gostar de um cara assim.

 

Técnicamente, não tinha o brilho criativo de alguns outros jogadores. Seus pontos altos eram a força e a eficiência. Foi um dos primeiros atletas do handebol brasileiro com um  biotipo ideal, muito parecido, agora me ocorre, com Stefan Olsson. Era um excelente defensor, numa época que esta era nossa principal deficiência.

 

Sua carreira não foi tão longa. Estivemos juntos pela última vez no Pan-Americano de Buenos Aires, em 1979. No dia dos cortes que definiriam aquela equipe, após o treino no SR Bragança, o Professor Simões chamou a mim, William e Montanha para uma conversa. Estava com dúvidas em relação aos cortes que iria efetuar e pediu a nossa opinião. Nós a demos e ficamos sabendo antecipadamente qual o grupo que iria ao Pan. Voltamos, então, junto ao grupo para ouvir o anúncio. Fiquei em pé, atrás da cadeira onde Collin estava sentado. A cadeira tremia. Vendo o nervosismo dele, não resisti: “-Fica frio, que você vai”. A felicidade que vi no seu rosto compensou, com sobras, a pequena traição que cometí com o Prof. Simões, e certamente colaborou para o bom ambiente e união daquela equipe.

 

Voltando ao Brasil, eu não mais o veria.

 

Collin morreu num acidente de moto na ponte Rio-Niterói, pouco tempo depois. Só nós, que tivemos a chance conviver com ele, sabemos o professor apaixonado e carismático que o Handebol do Rio perdeu, antes da maturidade profissional. Só nós podemos avaliar a falta que faz, seja qual for sua atividade profissional, um ser humano como ele. 

 

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BRASIL, Sudeste, SAO CAETANO DO SUL, Homem, de 46 a 55 anos