Vonnegut foi para Trafalmadore

Essa coisa de melhor do mundo é complicada. Sempre é uma escolha equivocada, já que o melhor o é apenas aos olhos de quem elege. Depende, portanto, de uma maneira particular de entender, ouvir, olhar.
Kurt Vonnegut é o melhor escritor do mundo. Nem todo mundo acha. Na verdade, nem todo mundo conhece. Escreve de um jeito tão fácil, diz de uma maneira tão nova - e inváriavelmente engraçada - coisas que sempre pensávamos e não sabíamos exprimir, que nos dá a ilusão de que também podemos ser assim, simples e inteligentes. Doris Lessing dizia que ele mapeia nossos horizontes e dá nomes aos lugares que conhecemos melhor.
Reli, entre o final de janeiro e a semana passada, quase toda sua obra. A cada página descobria algo que passou batido na primeira leitura. Ria de piadas que não lembrava. Redescobri o humanista, que acredita que a vida se resume a esta nossa passagem pelo planeta, que estamos aqui para ajudar uns aos outros a passar por isso, seja lá o que isso for.
Humanista, segundo sua própria definição, não acredita numa vida após a morte e, convidado a fazer a elegia na cerimônia fúnebre de Isaac Isimov - outro humanista juramentado - começou dizendo a uma platéia repleta deles " - Isaac está no Céu..." A cerimônoia fúnebre só pode recomeçar sete ou oito miutos depois, quando todos pararam de gargalhar. Quantos são capazes de piadas inteligentes em funerais?
Nesta era, a do narcisismo explícito, não se achava tão bom assim. Achava que ninguém é tão bom assim. Entre as coisas que reli, está esta: “Se você for a uma grande cidade, e uma universidade é uma cidade enorme, é bem possível que se depare com Wolfgang Amadeus Mozart. Fique em casa, fique em casa. Em outras palavras, não importa em que especialidade uma pessoa pense que é o cara, mais cedo ou mais tarde ele vai encontrar alguém naquele mesmo campo que vai por no seu rabo, por assim dizer. Esta pessoa certamente conhecerá o significado da expressão, já que em algum momento da sua vida também sofreu esta penetração no amor próprio".
Portanto, se você se acha, pense duas vezes.
Vonnegut morreu no mês passado. Poucos dias depois de minha mãe, mais ou menos da mesma idade, ter partido. De alguma maneira, fiquei orfão duas vezes na mesma semana. Ambos tiveram vidas gloriosas.
O que mais se pode querer ?

Ilustração de Vonnegut colocada em seu site no dia de sua morte